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UFRJ concede diploma póstumo a Stuart Angel em cerimônia histórica

Ao receber o diploma, Hildegard lembrou a luta de sua mãe, Zuzu Angel, para denunciar o desaparecimento e a morte de Stuart. Foto: Alessandro Costa

“Não sei se eu choro de emoção ou se grito de felicidade.” A frase de Hildegard Angel resumiu o tom da cerimônia que, na terça-feira (7/7), concedeu o diploma póstumo de bacharel em Ciências Econômicas a Stuart Edgar Angel Jones, estudante do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) morto durante a ditadura militar. Vestindo uma camiseta vermelha com a imagem do irmão, sob um discreto terno preto, Hildegard recebeu, em seu nome, o diploma no Salão Dourado do Palácio Universitário. Emocionada durante toda a solenidade, ela acompanhou os discursos, relembrou a trajetória de Stuart e celebrou o que definiu como um momento histórico de reconhecimento e reparação.

O ato marcou o início de uma série de homenagens e reparações históricas a estudantes da UFRJ mortos e desaparecidos durante o regime militar. Stuart é o primeiro de 26 nomes identificados pela Comissão de Memória e Verdade da UFRJ que deverão receber diplomação póstuma em uma cerimônia coletiva prevista para setembro, quando a universidade completará 106 anos.

A solenidade reuniu familiares, ex-colegas de Stuart, representantes do movimento estudantil, professores, dirigentes da universidade e integrantes da comunidade acadêmica. A mesa foi presidida pelo reitor Roberto Medronho e contou com a presença de Hildegard Angel; do professor emérito José Sérgio Leite Lopes, coordenador da Comissão de Memória e Verdade; da pró-reitora de Graduação, Maria Fernanda Nunes; do diretor do Instituto de Economia, Carlos Frederico Leão Rocha; e do estudante Bruno Ackerman, representante do Centro Acadêmico Stuart Angel.

Ao receber o diploma, Hildegard lembrou a luta de sua mãe, Zuzu Angel, para denunciar o desaparecimento e a morte de Stuart. “A mamãe dizia que continuava lutando pelos filhos das outras”, afirmou. Para ela, a homenagem representa uma conquista coletiva e um gesto capaz de renovar a memória de jovens que tiveram a vida interrompida. “Vinte e seis serão diplomados. Que coisa extraordinária. Que coisa sensacional”, disse.

Em sua fala, o reitor Roberto Medronho destacou o significado institucional da cerimônia. “Hoje, a UFRJ realiza um ato de profunda significação histórica, acadêmica, humana e democrática: a diplomação póstuma de Stuart Angel, estudante de Economia desta universidade, cuja trajetória foi brutalmente interrompida pela ditadura militar brasileira”, discursou.

Medronho ressaltou que o diploma não repara a dor da família nem devolve a juventude roubada de Stuart, mas reafirma seu pertencimento à Universidade. “Este diploma afirma, com toda a força simbólica da universidade pública brasileira, que Stuart Angel é e sempre será filho da UFRJ”, declarou. Para o reitor, a cerimônia reconhece que a violência não apaga trajetórias nem exclui da memória universitária aqueles que fizeram parte de sua história.

Ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes da então Universidade do Brasil, Carlos Alberto Muniz também destacou a importância da homenagem. Ele lembrou a convivência com Stuart e classificou a diplomação como uma vitória construída ao longo de décadas. “Estamos prestando um tributo a um companheiro que, da nossa geração, foi um exemplo para todos nós”, afirmou. Muniz também ressaltou o papel de Hildegard Angel na preservação da memória do irmão e de Zuzu Angel.

Reparação histórica

Stuart Angel Jones tinha 25 anos quando sua trajetória foi interrompida pela ditadura militar. Estudante de Ciências Econômicas da UFRJ e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi sequestrado, torturado e morto por agentes do regime militar em 1971. Seu corpo jamais foi localizado.

Em 2019, o Estado brasileiro retificou seu atestado de óbito, passando a registrar oficialmente que sua morte foi violenta e causada pelo Estado, no contexto da perseguição sistemática a opositores da ditadura militar instaurada em 1964.

Filho da estilista Zuzu Angel, Stuart teve seu desaparecimento amplamente denunciado pela mãe, que dedicou anos de sua vida à busca pelo filho e à denúncia das violações de direitos humanos praticadas durante o regime militar. Zuzu morreu em 1976, em um acidente de carro cuja versão oficial foi posteriormente contestada. A Comissão Nacional da Verdade concluiu que sua morte foi resultado de ação de agentes da ditadura militar. Ela morreu sem conseguir localizar o corpo do filho.

A preservação de sua memória foi mantida ao longo das décadas por familiares, especialmente por sua irmã. A solicitação da diplomação póstuma foi apresentada conjuntamente por Hildegard Angel e pelo Centro Acadêmico Stuart Angel, do Instituto de Economia da UFRJ, iniciativa que deu origem à cerimônia realizada na terça-feira (7/7).

Fonte: Conexão UFRJ

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